sábado, 5 de abril de 2014

Mas o amor, essa palavra...

Ontem voltei a ler O Jogo da Amarelinha. Talvez Júlio Cortázar seja o autor que eu mais tenha lido na minha vida. Tanto em quantidade de livros, como em quantidade de vezes que li as minhas obras preferidas, que são várias.

Provavelmente não vou ler o livro inteiro. Mas só de pegar a velha edição, uma impressão de 1970, folheá-la, procurar pelos capítulos que eu mais gosto e que me marcaram tanto na primeira vez que eu li, já me levou para longe daqui. Já me levou ao primeiro livro dele que eu li, o “Todos os Fogos, o Fogo” da Auira, que estava em uma estante na casa em que morávamos em Itacoatiara e me chamou a atenção pelo nome. Lembro que eu li em um fôlego só. Depois eu comentei com o Hugo Belluco e ele me indicou vários outros livros, principalmente o Prosa do Observatório, que ele adorava. A partir daí foi uma série de leituras que marcaram a minha vida: Os Prêmios, O Livro de Manuel, A Volta ao Dia em Oitenta Mundos, Histórias de Cronópios e Famas, Um Tal Lucas, Octaedro, As Armas Secretas, Os Autonautas da Cosmopista e tantos outros. Só parei quando já tinha lido todos os livros do Argentino.

Poderia ficar aqui analisando a precisão e maestria da escrita dele. Um autor que se arrisca ao limite da escrita, que ao mesmo tempo em que eleva a linguagem ao estado de arte, a coloca em cheque quase ao ponto de anulá-la. Mas não foi por isso que me deu vontade de ler novamente o Cortázar. Foram as emoções que ele provoca em mim que me levaram até o Jogo da Amarelinha. Já tentei entender, já li alguns livros analisando a sua obra. Alguns são belos livros, como O Escorpião Encalacrado do Davi Arrigucci, mas nenhum conseguiu me fazer entender o que esses livros mexeram dentro de mim.

Talvez por isso tenha voltado ao Jogo da Amarelinha. Talvez seja porque isso tenha tanto a ver com o que sinto hoje: “Quando nos despedimos, éramos como duas crianças que se tinham tornado estrepitosamente amigas numa festa de aniversário e que continuavam olhando uma para a outra enquanto os pais as puxavam pelas mãos, arrastando-as para a rua, e isso é uma dor doce e uma esperança, e sabe-se que um se chama Tony e a outra se chama Lulu, e basta para que o coração seja como uma fruta, e...”


O Jogo da Amarelinha- Capitulo 7- Julio Cortázar
"Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."

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